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Os caminhos da Mente - Eu sou um bebê - Quais as fases de nosso desenvolvimento?

O bebê apenas sente que algo bom ou ruim pode ocorrer no que diz respeito a satisfação de suas necessidades básicas. O bebê é um aglomerado de pulsões agindo no sentido de provocar prazer ou...

Por Regina Célia Pastore Mello - Psicóloga - em 27/04/2023 às 11:13:56

Foto de ilustração

Fase intra-uterina - ovo (15 primeiros dias), embrião (até o terceiro mês), feto (a partir do quarto mês)

Fase extra-uterina - recém nascida (15 primeiros dias), infância (até o primeiro ano), segunda infância (de 2 a 5 anos), pré-puberal (de 6 aos 12 anos), puberdade (de 12 a 16 anos), pós puberal (21/ 25 anos), virilidade (de 25 anos até a menopausa), velhice (80 anos).

No bebê, o ego está se formando, mas ainda muito frágil. Quando nasce, não tem identidade (percepção de si). Nos primeiros contatos com a mãe não há discernimento entre objeto externo (mundo externo) e ser em questão (bebê). O bebê apenas sente que algo bom ou ruim pode ocorrer no que diz respeito a satisfação de suas necessidades básicas. O bebê é um aglomerado de pulsões agindo no sentido de provocar prazer ou desprazer. O bebê satisfeito é aquele que está bem alimentado, bem agasalhado e com a mãe perto - sente prazer. Os momentos bons (de estabilidade) são chamados por M. Klein de seio bom. Os momentos não tão bons (de espera, por exemplo, quando a mãe está longe do bebê) são chamados de seio mau. O bebê introjeta o seio bom e o seio mau e projeta tudo isso com intensidade peculiar.

Há sempre algum tipo de sofrimento do bebê em relação a realidade. Na verdade, em cada fase do desenvolvimento humano há sofrimento, há angústia. Se a angústia for muito aguda e insuportável, algum estado patológico poderá aflorar: O sofrimento produzido pela realidade leva à identificação projetiva patológica, e isso por sua vez leva a realidade a se tornar cada vez mais perseguidora e penosa (M.Klein). O sofrimento faz parte da existência de cada um de nós. É um mal-estar que podemos dar o nome de solidão: o ser humano busca integrar a sua mente através de um certo equilíbrio entre id=prazer, ego=razão e superego=censura - processo sempre difícil e sofrido pelo resto da vida. Este processo não deixa de ser solitário porque individual, único. O sentimento de solidão pode diminuir ou aumentar, mas nunca pode ser completamente eliminado, porque a tendência para a integração, assim como o pesar experimentado nesse mesmo processo, brota de fontes internas que continuam operantes pela vida afora (M. Klein).

Na luta por um equilíbrio mental, segundo M.Klein, o bebê atravessa duas fases:
-Posição esquizo-paranóide - a principal ansiedade é a de que o ego seja destruído pelo objeto ou por objetos maus.
-Posição depressiva - as ansiedades brotam da ambivalência, a principal ansiedade é a de que seus próprios impulsos destrutivos tenham destruído ou destruam o objeto que ama e do qual depende totalmente.

Eu amo os meus pais

As primeiras identificações ou laços amorosos acontecem com os pais. Geralmente o menino desenvolve uma libido (amor) pela mãe e uma libido (destrutiva ligada ao seio mau introjetado) pelo pai. É a fase que o menino quer afastar o pai da mãe, quer que apenas a mãe lhe dê carinho, comida, etc. Por desejar neste momento afastar o pai da mãe desenvolve uma culpa:
-culpa - não devia sentir o que sinto.
-castigo - sente-se perseguido, alguém vai me castigar por isso. O menino pode sentir-se tão culpado e tentar se punir desenvolvendo um comportamento parecido com o do pai, por exemplo: apresentando a mesma tosse do pai.

Quando o menino percebe que não conseguirá a mãe somente para ele, dessexualiza a mãe através da sublimação (transformação num amor ideal). Aqui está presente o superego (censura). O amor ideal (platônico) deixa suas marcas e aparece bastante na fase da adolescência (ex: paixão do menino pela professora, nunca dará certa, mas a situação primitiva do Complexo de Édipo repete-se). O amor adolescente é uma tentativa de definição da própria identidade numa constante oscilação entre ser criança e ser adulto.

Quais os caminhos afetivos inconscientes desenvolvidos na relação pais-filhos?
-a menina se apaixona pelo pai e se identifica com a mãe, escolhendo um homem para marido.
-o menino se apaixona pela mãe e se identifica com o pai, escolhendo uma mulher para esposa.
-o menino se identifica com a mãe, escolhendo um homem para parceiro sexual.
-a menina se identifica com o pai, escolhendo uma mulher para parceira sexual.
-o menino e a menina não escolhem pai ou mãe, mas se escolhem como objeto de amor=narcisismo.

Eu estou apaixonado

O amor platônico, característica marcante dos adolescentes apaixonados, aparece no adulto apaixonado com a vivência da idealização do objeto amado, com a dependência psíquica e com o predomínio da fantasia. Já na relação conjugal, dois aspectos serão relevantes: as identificações maternas/paternas internalizadas e o grau de desenvolvimento intrapsíquico de cada parceiro. Quando os parceiros estão vivenciando um processo intenso de idealização, a opção por algo racional fica comprometida. Para preencher uma carência afetiva, escolhe-se a paixão e não a pessoa numa tentativa de neutralizar problemas pessoais. Todas as ansiedades provenientes da relação pais e filhos refletem-se na escolha do parceiro para casamento, são as identificações familiares internalizadas.

O casamento também leva em conta a capacidade de cada parceiro em ser flexível, ou seja, o grau de desenvolvimento de cada parceiro interfere para que uma relação seja feliz. Uma relação estável e madura implica em: respeitar o espaço do outro e capacidade para mudar dialogando sobre alternativas. Em muitos casamentos a ruptura não acontece por causa de conflitos sérios, mas pela incapacidade de lidar com tensões. Uma das principais fontes de infelicidade está na discrepância entre expectativas conscientes e inconscientes de cada parceiro. Os principais indicadores de separação são: relações sexuais insatisfatórias, falta de comunicação, hostilidade, indiferença, falta de companheirismo, forte vinculação com os filhos em prejuízo do relacionamento do casal.

Eu vou fazer análise

Na análise o paciente vai colocar no analista os seus conflitos emocionais advindos de relações objetais complexas, principalmente com os seus pais. O psicanalista vai representar para o paciente, por exemplo: um pai bom, uma mãe ruim, um irmão odiado, etc. O psicanalista vai ser então o espelho dos conflitos do paciente. O paciente vai transferir as suas representações emocionais para o psicanalista, a transferência é a repetição inconsciente das vivências do passado. Há uma transferência positiva quando o paciente sente pelo analista amor, apego, confiança, paixão. Há uma transferência negativa: ódio, desconfiança, inveja. O psicanalista também questiona os seus sentimentos pelo paciente. A boa aliança analítica é pontuada por um amor essencial para que os conflitos emocionais possam ser elaborados.

A regra fundamental da Psicanálise é a associação livre de ideias. Esse processo de comunicação livre vai esbarrar nas resistências inconscientes: vai chegar algum momento em que o paciente terá vergonha de se expor e haverá uma crítica a essa lembrança desagradável. Uma parte deste material é projetada no analista: aquilo que é rejeitado ou amado é projetado no analista. O analista deve ajudar seu paciente a transformar em pensamentos conscientes os sentimentos inconscientes, aumentando a tolerância em relação a ansiedade, identificando conflitos e refletindo sobre eles.

A liberdade interna

Na verdade, o que todo ser humano busca é a sua liberdade interna. Sofre na sua relação consigo mesmo, sofre na relação com as pessoas. Sente-se preso e cada vez mais preso porque não consegue entender o que está acontecendo. O desenvolvimento pessoal, a análise tem essa finalidade: de levar o ser humano a conquistar a liberdade através de um questionamento profundo. Muitas vezes as pessoas expressam a sua falta de liberdade na forma de doença. Por exemplo: determinada paciente de oito anos sofria de asma, sua mãe dizia ter um amor excessivo por ela, ser muito possessiva. A criança sentia-se oprimida sob a máscara do amor. Por traz deste amor ocultava-se o ciúme, o medo de perder. Não é que a mãe ama sua filha demais. O que é demais é a atitude possessiva. Segundo Bruno Bettelheim: "o desejo de governar a vida de outra pessoa não é amor". As pessoas dão flores de presente porque nas flores está o verdadeiro amor. Quem tentar possuir uma flor, verá sua beleza murchando. Mas quem apenas olhar uma flor num campo, permanecerá para sempre com ela. Porque ela combina com a tarde, com o pôr do sol, com o cheiro da terra molhada e com as nuvens do horizonte. A floresta me ensinou que você nunca me pertencerá e por isso terei você para sempre. Você foi a esperança dos meus dias de solidão, a angústia do meu momento de dúvida, a certeza dos meus momentos de fé. O amor é a liberdade (Paulo Coelho).

Como chegar à liberdade interna? Será que há uma tendência a alienação em todo ser humano? Segundo Simone de Beauvoir: os primitivos alienam-se no totem, os civilizados em sua alma individual, em sua propriedade: tentação a inautencidade. O caminho para não cair na alienação é pensar, analisar. Sem dúvida, a abertura ao pensamento faz com que o ser humano possa compreender o sentido de sua existência. Para pensar, é preciso de silêncio interno. O silêncio assusta porque é o revelador da profundidade das ideias. Existe aquele momento em que a voz fica trêmula, a garganta seca, a pele ruborizada e o coração palpitante. É quando a pessoa se pergunta: ?o que está acontecendo agora comigo?

Sente medo de ir mais além de si mesma, atravessar mais algumas defesas. Mas ela vai em frente porque medo e desejo são companheiros nesta caminhada em busca de algo muito precioso: um sentido para a própria vida.



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